Capítulo I

Formação Urbana e Gramática Sonora

Capítulo 1 de 6

Formação Urbana e Gramática Sonora

Parte 1 — A Herança que Veio de um Porão

Figura — Ladário Teixeira com o saxofone — foto histórica da Jazz Band Ladário Teixeira

Em algum momento do início do século XX, em Uberlândia, Minas Gerais, um menino cego encontrou no porão da casa um saxofone que o pai havia abandonado. Não havia professor. Não havia partitura em Braille. Não havia ninguém para ensinar. Havia o instrumento, havia o ouvido — e havia uma vontade que o menino não sabia nomear, mas que o impedia de parar.

Ladário Teixeira nasceu em 10 de setembro de 1895. Aprendeu sozinho. Ouviu discos de Patápio Silva no gramofone e deixou que a música entrasse pelo corpo antes de passar pela teoria. Quando chegou ao Conservatório Paulista para fazer a prova de admissão, tocou uma peça considerada clássica para o violino. O professor Alfério Mignone — pai do maestro Francisco Mignone — ouviu e disse: "Teremos prazer em admiti-lo para aprender qualquer outro instrumento. Para o saxofone, não temos professor que esteja à sua altura."

Em Barcelona, o filho do inventor do saxofone, Alberto Sax, ouviu Ladário tocar e beijou-lhe as mãos. Disse: "Meu pai inventou o saxofone, mas o senhor fez dele um instrumento digno da admiração do mundo inteiro." Em Paris, após uma apresentação no Salão Pleyel, o prefeito mandou devolver os impostos pagos em reconhecimento ao seu gênio. Durante uma turnê europeia, levou o saxofone à Selmer e propôs modificações que adicionaram quinze notas ao instrumento. O resultado ficou conhecido como Modelo Ladário, adotado nas principais orquestras do mundo.

Ladário Teixeira morreu em Belo Horizonte em 3 de agosto de 1964. Tinha 68 anos. Era o avô de Tony do Bandolim.

"A herança que ele me deixou foi a careca e o talento musical. Sou o único careca entre os filhos do meu pai. Ele deu apelido para todos os netos. O meu foi Tino — disse que eu seria um homem de muito tino."

— Tony do Bandolim

Essa frase resume uma genealogia que este livro precisa reconhecer antes de qualquer análise estrutural. A gramática musical urbana brasileira não é abstração teórica. Tem rostos, nomes, avós que aprenderam saxofone em porões e netos que aprenderam bandolim em rodas de choro. A transmissão que estudamos nos próximos capítulos tem endereço: começa em Uberlândia, passa pelo Rio de Janeiro, chega ao Acre.

Figura — Roda de choro e samba na Penha, com Jamelão e Raul de Barros — acervo Tony do Bandolim

Parte 2 — O Que a Cidade Fez com a Música

Figura — Praça Onze, Cidade Nova, Rio de Janeiro, final do século XIX

Numa noite quente de 1897, num casarão da Cidade Nova, no Rio de Janeiro, um grupo de músicos se reuniu. Havia flauta, cavaquinho, dois violões. Ninguém declarou ali nenhuma identidade nacional. Tocaram polcas e lundus adaptados a um balanço mais sincopado, usando a partitura apenas como ponto de partida — o verdadeiro aprendizado acontecia na repetição, na variação sutil, no momento em que um músico ouvia o que o outro fazia e respondia.

O que se ensinava ali era um modo de estar no tempo: atrasar o acento sem perder o pulso, desenhar contracantos que conversam com a melodia principal, ornamentar sem romper a clareza do tema. Nenhum método formal, nenhuma escola. Apenas a prática coletiva repetida até que os princípios entrassem no corpo — e ficassem lá.

Décadas depois, essa mesma lógica estaria no estúdio da Rádio Nacional, nos discos de 78 rpm, nos festivais televisionados dos anos 1960, nas rodas de Belém e de Rio Branco, e nas reuniões por videoconferência que fundaram o Instituto Choro da Amazônia em 2024. A gramática não mudou. Mudaram os suportes, os palcos, os meios de difusão. A lógica estrutural permaneceu.

Parte 3 — O Quintal de Irajá

Antonio Carlos do Nascimento — o Tony do Bandolim — não nasceu em Rio Branco. Nasceu em Nilópolis, por acaso: seus pais voltavam de Minas Gerais e pararam na casa da avó. Era por volta das treze horas. Sua mãe foi ouvir a novela no rádio logo após o parto. Há algo de alegórico nisso: Tony nasceu no mesmo instante em que o rádio tocava.

Cresceu entre Flamengo e Laranjeiras. Dos seis aos onze anos viveu em Irajá, onde a avó havia se mudado. O pai comprou um terreno e construiu uma casa ao lado. E foi nesse quintal que a memória musical de Tony se formou.

"Aos cinco anos eu já tinha um tamborim na mão durante uma roda de samba e choro na minha casa. Meu pai tocava violão e o que ele chamava de violinha — o violão tenor. Não havia aula, não havia método. O aprendizado era por escuta, por imitação, pelo corpo."

— Tony do Bandolim

Esse quintal de Irajá é o mesmo laboratório que a historiografia descreve nos cortiços do século XIX. A proximidade física, a repetição, o aprendizado por imitação — os mesmos mecanismos que formaram a gramática urbana brasileira continuavam funcionando, décadas depois, num bairro do subúrbio carioca.

Tony voltou para Laranjeiras aos doze anos. Completou o ensino fundamental em Irajá e carregou para a adolescência os princípios que o quintal havia instalado no corpo — sem que ele soubesse ainda o nome do que havia aprendido.

Figura — Tony do Bandolim ao bandolim — acervo pessoal

Parte 4 — O Pontinha e a The Spider

Antes do bandolim, houve o futebol. Tony foi atleta do Fluminense — começou no futsal, foi para o campo como meia, e aos dezessete estava na seleção carioca de futebol de praia. Jogava com Roberto Bocão, pai do Juan, que viria a ser jogador do Flamengo e da seleção brasileira. Bocão chamava Tony de Pontinha — o único garoto do time, cercado de adultos, mas já com a precisão de quem sabia exatamente onde colocar a bola.

Paralelamente ao futebol, tocava guitarra numa banda de rock chamada The Spider. E andava nas rodas de samba para não perder a raiz. A convivência simultânea com o rock e o samba não era contradição — era o Rio de Janeiro dos anos 1970 funcionando como laboratório de escutas múltiplas.

Aos dezessete, Tony passou no vestibular para a faculdade de música — era o que queria fazer. Mas o pai se separou da mãe. Os planos mudaram.

"Eram seis filhos com uma mãe solteira. Fiz uma promessa: só tocaria o que gostasse e com músicos bons. Nunca tive pretensão de ser artista — apenas um bandolinista que usava a música para aliviar a alma das coisas ruins do mundo."

— Tony do Bandolim

Aos dezenove anos estava estudando informática no Serpro, na IBM e depois na Burroughs, enquanto cursava Administração de Empresas. A lógica aprendida na tecnologia da informação voltaria décadas depois como ferramenta de análise musical. Tony aprendeu a enxergar o choro como sistema antes de ter palavras acadêmicas para isso.

Parte 5 — O Bandolim Me Escolheu

Em 1977, Tony participou do Festival Nacional do Choro tocando cavaquinho no regional de Vivaldo Medeiros. A música era um choro que o próprio Vivaldo compôs em homenagem à craviola de Tony — instrumento que ele costumava tocar nas rodas. O título: Chora Craviola. Fizeram o arranjo, classificaram-se e gravaram o disco das doze finalistas. Nessa mesma cena estava uma jovem bandolinista de talento extraordinário — Nilze Carvalho, que décadas depois se tornaria multi-instrumentista, compositora e cantora, uma das vozes mais completas do choro brasileiro.

Na volta, não queria mais tocar cavaquinho. Os outros membros do grupo também resolveram sair — mas sugeriram o bandolim. Tony nunca havia tocado. Não sabia nem a afinação.

"Fui ao Bandolim de Ouro, comprei um Del Vecchio, aprendi a afinação, coloquei um disco do Jacob — o choro era Vale Tudo. Ouvi e toquei de primeira. E descobri que sabia tocar bandolim. O bandolim me escolheu. Nunca mais quis tocar outro instrumento."

— Tony do Bandolim

Tony aprendeu bandolim ouvindo Jacob do Bandolim. Não por método, não por escola — por escuta. É o mesmo mecanismo que Ladário usou no porão com o saxofone. É o mesmo mecanismo que Adamor usou no Marajó com o rádio de bateria de carro. A gramática se transmite pelo ouvido, de geração em geração.

Figura — Palco Joel Nascimento, 1982 — acervo pessoal Tony do Bandolim

Parte 6 — A Micropartes, o Tino's e o Último Aniversário de Elizeth

Em 1982, Tony recebeu um telefonema da TV Globo. A emissora não tinha departamento de microinformática e havia sido acusada de manipular resultados de pesquisa durante as eleições daquele ano — numa briga entre Roberto Marinho e Leonel Brizola. A Globo não tinha culpa, mas precisava de suporte técnico. A empresa de Tony, a Micropartes, foi contratada para ajudar a criar a infraestrutura de microinformática da emissora.

De 1982 a 1996, a Micropartes funcionou. E foi nesse período que Tony criou, junto com Maurício Carrilho, o Tino's Bar — na Vila da Penha. O nome não era coincidência. Tino era o apelido que Ladário Teixeira havia dado ao neto. O bar que ajudou a revitalizar o choro no Rio de Janeiro carregava o nome que o maior saxofonista do mundo havia atribuído a uma criança de Irajá.

"Do Tino's Bar saíram grandes ideias para revitalizar o choro. E foi lá que se comemorou o último aniversário de Elizeth Cardoso, com muitos músicos bons."

— Tony do Bandolim

E numa quarta-feira no Mandrake — bar em Botafogo, na rua Marquês de Abrantes onde Tony morou —, a Beth Carvalho fez uma pergunta que deu origem a um dos blocos mais queridos do carnaval carioca. Presentes naquela roda: Tony, a Beth, o Paulão 7 Cordas, Edmundo Souto e Paulinho Tapajós — compositores de Andança. A Beth disse: seria legal ter um bloco que só concentrasse. Assim nasceu o Bloco Concentra Mas Não Sai. No primeiro dia, todos os músicos eram da roda de choro. O bloco existe até hoje — da última vez, estava em Laranjeiras com mais de cinco mil pessoas.

"O choro criou um bloco de samba."

— Tony do Bandolim

Parte 7 — O Acre

Em dezembro de 2000, Tony chegou ao Acre para ajudar uma amiga carioca que morava em Rio Branco. A amiga estava com síndrome do pânico, o marido havia abandonado a família. Tony foi ficar seis meses. Está lá até hoje.

O governador do Acre conheceu seu trabalho e o levou nas prestações de contas por todo o estado — Tony conheceria vinte dos vinte e dois municípios acreanos.

Em 2002, Tony formou o Som da Madeira — um grupo de adolescentes com idades entre treze e quinze anos. O mais novo tinha treze. Tocavam choro, samba, música brasileira instrumental. Acompanharam o Jamelão quando Tony o trouxe ao Acre. Hoje esses jovens são adultos com a vida arrumada — e o Som da Madeira continua existindo, agora com músicos adultos, como referência musical no estado.

A Secretaria de Segurança do Acre pediu um projeto social com música após o assassinato de uma criança numa escola. Tony criou o projeto Escola, Polícia e Família — ensinava música como base de integração social. O fechamento do projeto foi um show na concha acústica com sessenta jovens tocando juntos: Bolero de Ravel, The Wall, Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Valdir Azevedo, Paulinho da Viola, Chico Buarque. Cantaram em inglês com um roqueiro como vocalista. Das meninas que queriam cantar nasceu o show Meninas do Francisco Cantam Chico — adolescentes da Escola Berta Vieira, no bairro São Francisco, cantando apenas músicas de Chico Buarque.

Tony deu também uma oficina de percussão exclusivamente para mulheres. Começaram cinquenta. Na primeira apresentação do grupo eram quinze. No final ficaram três — que fundaram o Moças do Samba, gravaram um EP com sambas compostos por Tony em parceria com Claudio Ribeiro, de Curitiba, e com uma amiga de São Paulo, e fazem projetos relevantes no Acre até hoje.

Claudio Ribeiro — parceiro de Claudionor Cruz e de Cartola — conheceu Tony num dos eventos de cooperativismo musical que Tony estava organizando. Era presidente da Paraná Esporte e Lazer e o convidou para o projeto Viva o Verão, que tocava em todas as praias do Paraná. No carro, antes de chegarem ao hotel na primeira viagem, Claudio mostrou uma letra e perguntou se Tony topava colocar a música. Antes de chegarem ao destino, o samba Bacuri estava pronto.

A parceria durou dois anos. Numa segunda edição do Viva o Verão, Claudio desafiou Tony: "Vou fazer uma letra agora. Se você gostar, coloca melodia em todas as outras." Fez a letra. Tony gostou. Em aproximadamente quatro horas, colocou melodia em treze letras de Claudio — incluindo um samba em homenagem ao sambista que fundou a primeira escola de samba do Paraná, o Mestre Maé. O samba Bateu Saudade acabou citado em livro sobre o samba paranaense e num vídeo de pesquisa de rua onde o entrevistado o mencionou como o samba que mais gostava, elogiando a melodia e citando o nome de Tony.

Uma amiga de São Paulo — que veio ao Acre e conheceu Tony através de uma das Moças do Samba — quis escrever letras de samba. Tony deu-lhe uma lista de referências: Nei Lopes, Paulo César Pinheiro, Luís Carlos da Vila, Wilson Moreira. "Primeiro ouça, entenda a linha poética, depois escreva." Ela escrevia bem, tinha boa métrica. Num sábado, das três às sete da tarde, Tony colocou melodia em quatorze letras dela.

Tony participou também da fundação da COMAC — Cooperativa de Músicos do Acre — como parte do esforço de organizar a cadeia produtiva da música independente na região. Em 2010, coordenou o 1º Seminário de Cooperativismo Musical do Brasil — proposto por ele num congresso em Goiás para resolver uma disputa de hegemonia entre Minas Gerais e São Paulo pelo controle do movimento cooperativista musical. São Paulo sabotou o processo. Foi o primeiro e o único seminário do gênero no país.

"Trouxe para a música o aprendizado da lógica que estudei em TI. A prática e a vivência nas rodas de choro é que me fizeram pensar como a música brasileira se construiu e se preservou: através de uma lógica simples — eu aprendo e repasso, você aprende e repassa."

— Tony do Bandolim

Figura — Adamor do Bandolim tocando bandolim — acervo pessoal

Parte 8 — Como se Forma uma Gramática

Adamor do Bandolim nasceu em 1942 no interior do Marajó. Seu tio Firmilino Lobato Teixeira tocava clarinete com a palheta para cima e ensinou as primeiras posições num cavaquinho quando Adamor tinha seis ou sete anos. "Só isso. Depois disse: o resto tu te viras." O resto veio pelo ouvido: discos que o pai escondia e que Adamor ouvia amolando a agulha numa pedra de afiar faca; programas de rádio captados por uma bateria de carro; uma roda que existia onde houvesse dois instrumentos e alguém disposto a tocar.

As histórias de Tony e Adamor — separadas por décadas e por quilômetros — descrevem o mesmo processo. É a gramática sendo transmitida sem partitura, sem escola, sem método oficial. Sendo transmitida como sempre foi: pelo corpo, pelo ouvido, pela prática repetida até que os princípios se tornem reflexo.

"Meus mestres foram os discos de vinil e as rodas de choro e samba na minha casa. Foi assim que aprendi a escutar, a respeitar o tempo, a fazer um contracanto sem atrapalhar a melodia."

— Tony do Bandolim

Parte 9 — A Forma do Choro

Figura — Diagrama estrutural do choro: A–B–A–C–A com centros tonais correspondentes

O choro tradicional em tonalidade maior organiza-se segundo a lógica do rondó: A–B–A–C–A. A seção A estabelece o centro tonal na tônica. A seção B desloca-se para a relativa menor. A seção C explora a região da subdominante, criando expansão harmônica antes do retorno definitivo. Essa sequência não é progressão linear. É arquitetura de tensão e retorno.

Mestre Siqueira — cavaquinista que conviveu com Pixinguinha — descreveu uma prática recorrente nas rodas: escolhia-se uma das partes e todos improvisavam sobre ela. A repetição de frase implicava penalidade — pagar a rodada. A regra lúdica exigia inventividade contínua, domínio harmônico e memória temática apurada.

"Essa prática revela o que a roda de choro sempre foi: não espaço de espontaneidade descontrolada, mas ambiente regulado por códigos compartilhados. O virtuosismo consistia na capacidade de produzir novidade sem romper a matriz organizadora."

— Tony do Bandolim, sobre Mestre Siqueira

Parte 10 — O Instituto Choro da Amazônia

Em 2024, quando o choro foi reconhecido como patrimônio cultural imaterial do Brasil, Tony do Bandolim e Adamor do Bandolim se encontraram virtualmente pela primeira vez. Nunca haviam se visto pessoalmente — Tony no Acre, Adamor no Pará, separados por milhares de quilômetros de floresta. O que os uniu foi o reconhecimento do choro como patrimônio e a convicção de que a Amazônia precisava de uma voz organizada nesse debate.

Fundaram então o Instituto Choro da Amazônia — o ICA — articulando músicos de oito estados: Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e São Paulo. Não havia sede física, não havia financiamento central. Havia gramática compartilhada — a mesma que Adamor aprendera com o tio Firmilino Lobato Teixeira num igarapé do Marajó e que Tony aprendera num quintal de Irajá.

"A gramática do choro é o que nos uniu antes de nos conhecermos. Quando começamos a conversar, já falávamos a mesma língua."

— Tony do Bandolim

Parte 11 — Pixinguinha e a Síntese Histórica

Figura — Pixinguinha: a convergência entre tradição de roda, formalização harmônica e mediação institucional

Nenhum músico encarna melhor a síntese desse percurso do que Pixinguinha — Alfredo da Rocha Viana Filho, nascido em 1897 no Rio de Janeiro, filho de músico, neto de músico. Carinhoso, composta nos anos 1910 e gravada com letra apenas em 1932, sintetiza o que a gramática urbana havia construído: melodia memorável, harmonia densa que surpreende a cada escuta, síncope que o corpo reconhece antes de a cabeça entender.

Mais do que compositor, Pixinguinha representa a cristalização de forças coletivas. Cada música sua é também o resultado de décadas de prática anônima — de músicos que tocaram e ensinaram sem assinar, de rodas que aconteceram sem ser gravadas, de aprendizados que passaram de mão a mão sem deixar registro.

Figura — Roda de choro nos anos 1940 — a prática coletiva que sustenta o sistema

O que se consolidou nesse período foi um sistema musical dotado de gramática compartilhada, mecanismos próprios de transmissão e capacidade adaptativa. Essa capacidade — de combinar flexibilidade e forma, de permitir liberdade dentro de um quadro comum — é o que tornará o choro um dos principais alicerces da gramática sonora urbana ao longo do século XX.

Ladário Teixeira num porão de Uberlândia. Tony num quintal de Irajá. Adamor num rio do Marajó. Três histórias, uma gramática. É dessa continuidade que os capítulos seguintes tratam.

A Invenção Sonora do Brasil Cap. I